Anêmona Teatro apresenta nova adaptação de “A Metamorfose”, de Franz Kafka, na Lapa

Montagem dirigida por Jopa Moraes transforma o clássico da literatura em experiência cênica que combina horror, humor e reflexão sobre trabalho, família e desumanização

A transformação de um homem em inseto e as consequências dessa mudança para sua família ganham o palco em uma nova adaptação de A Metamorfose, obra clássica de Franz Kafka. Com criação do coletivo Anêmona Teatro, o espetáculo está em cartaz no Espaço Armazém, na Fundição Progresso, na Lapa, com dramaturgia e direção de Jopa Moraes.

A montagem parte da conhecida história de Gregor Samsa, jovem vendedor ambulante que desperta transformado em um enorme inseto. Mais do que explorar o aspecto fantástico da narrativa, a encenação investiga o impacto dessa metamorfose nas relações familiares e na maneira como o protagonista passa a ser percebido por aqueles que antes dependiam dele.

Nesta versão, a história se desenvolve em uma Praga de clima tropical atlântico. A proposta preserva a sequência dos acontecimentos da obra original, mas abandona a narração em terceira pessoa para dramatizar as situações e ampliar a presença das demais personagens. O resultado combina ações físicas, imagens perturbadoras e o humor desconcertante característico da escrita de Kafka.

O corpo como território da transformação

Interpretado por Vitor Schei, Gregor precisa aprender a habitar sua nova carapaça enquanto enfrenta a reação dos familiares. O inseto ganha materialidade no palco por meio de um figurino que combina indumentária e manipulação de bonecos, concebido por Dimi Rumbelsperger e construído por Alex Grilli.

A investigação corporal é um dos elementos centrais da montagem. Em vez de tratar a transformação apenas como metáfora, a encenação coloca diante do público um corpo que já não corresponde às expectativas sociais e familiares. A experiência física do protagonista torna visíveis o estranhamento, o isolamento e a dificuldade de comunicação que atravessam a narrativa.

Larissa de Paula, Nayane Ficher e Rafael Nasária interpretam os integrantes da família Samsa, que precisam reorganizar a própria rotina diante da mudança de Gregor. Entre o afeto e a repulsa, a convivência passa a ser marcada por uma tensão crescente, especialmente quando o jovem deixa de cumprir o papel de provedor da casa.

A questão financeira, presente na obra de Kafka, ganha destaque na adaptação. Antes da metamorfose, Gregor sustentava a família com seu trabalho itinerante. Depois da transformação, a manutenção do jovem passa a ser vista como um fardo, colocando em xeque os vínculos que pareciam sustentá-los.

Trabalho, sobrevivência e desumanização

A montagem também aproxima o clássico literário de questões contemporâneas relacionadas às condições de trabalho. Ao despertar transformado, a primeira preocupação de Gregor não é compreender o que aconteceu com seu corpo, mas conseguir chegar ao trabalho. A obrigação profissional permanece mesmo diante de uma situação extrema, evidenciando como sua identidade está vinculada à capacidade de produzir e sustentar a família.

Em um contexto de debates sobre jornadas de trabalho, incluindo a escala 6×1, essa dimensão da história ganha novas possibilidades de leitura. A trajetória do personagem coloca em evidência uma lógica na qual o valor de uma pessoa parece depender de sua utilidade econômica, enquanto suas necessidades e sua própria existência ficam em segundo plano.

Ao mesmo tempo, o espetáculo evita reduzir o conflito a uma oposição simples entre vítima e algozes. As personagens são confrontadas com decisões difíceis, atravessadas por afeto, medo, desconforto e necessidade de sobrevivência. A transformação de Gregor altera não apenas a vida do protagonista, mas também os limites da convivência familiar.

Com iluminação e cenografia de Jopa Moraes, direção musical de Gustavo Gomes e preparação corporal assinada por Vitor Schei e pelo próprio diretor, a montagem constrói um universo em que o fantástico se torna concreto. O horror da situação convive com o humor, enquanto o público acompanha a deterioração dos vínculos e os limites da aceitação.

Ao levar A Metamorfose ao palco, o Anêmona Teatro retoma uma narrativa que permanece aberta a diferentes interpretações: até que ponto alguém continua sendo reconhecido como pessoa quando deixa de corresponder às expectativas daqueles que o cercam? E por quanto tempo os laços afetivos resistem quando a convivência deixa de oferecer as mesmas garantias?

Serviço

Espetáculo: A Metamorfose, a partir da obra de Franz Kafka
Realização: Anêmona Teatro
Direção e dramaturgia: Jopa Moraes
Local: Espaço Armazém, Fundição Progresso
Endereço: Rua dos Arcos, 24, Lapa, Rio de Janeiro
Temporada: de 15 de outubro a 15 de novembro de 2026
Ingressos: https://www.sympla.com.br/produtor/espacoarmazem

Elenco: Vitor Schei, Larissa de Paula, Nayane Ficher e Rafael Nasária.

Ficha técnica: Figurinos: Dimi Rumbelsperger; iluminação e cenografia: Jopa Moraes; direção musical: Gustavo Gomes; projeto gráfico e edição de vídeos: Rafael Nasária; dramaturgismo: Mateus Sabato; fotos promocionais: Rafael Mollica; fotos de cena: João Gabriel Monteiro e Heitor Lopes; bióloga no set: Luiza Mout; indumentária do inseto: Alex Grilli; máscaras de pesadelo: Chris Igreja; preparação corporal: Vitor Schei e Jopa Moraes; assistência de cenografia: Nayane Ficher; catering dos ensaios: Larissa de Paula e Dimi Rumbelsperger; assessoria de imprensa: Malu Selonk; produção: Anêmona Teatro.

Nando Andrade

Nando Andrade

Produtor cultural, produtor executivo e diretor de produção audiovisual, com mais de 18 anos de experiência em projetos culturais, entretenimento, eventos e audiovisual. É fundador da Visuallyze e atua na gestão, produção e desenvolvimento de projetos culturais e audiovisuais no Brasil.