É O FIM! LTDA transforma a morte em experiência musical irreverente e brasileira
Novo espetáculo da CiaFaláCia combina comédia, música ao vivo e sátira ao universo corporativo para discutir, com humor e sensibilidade, um dos maiores tabus da existência humana
Falar sobre a morte pode ser difícil. Transformá-la em uma experiência teatral divertida, musical e profundamente brasileira é o desafio assumido por “É O FIM! LTDA”, novo espetáculo da CiaFaláCia, que desde 2008 desenvolve experiências cênicas a partir de diferentes linguagens teatrais.
Em sua nova criação, a companhia leva ao palco uma comédia musical inédita que transforma o fim da vida em matéria-prima para o humor, a reflexão e a música. A trama acompanha três personagens empreendedores que decidem criar uma empresa especializada em planejar e executar velórios personalizados, batizada de “É O FIM! LTDA”.
A proposta é apresentada como um novo empreendimento no mercado: a plateia, tratada como uma espécie de clientela VIP, é convidada a conhecer os serviços da empresa e experimentar diferentes possibilidades de despedida por meio do inusitado “Teste Drive Gurufim!”.
O que começa como uma apresentação comercial, porém, ganha contornos cada vez mais inesperados. No dia do lançamento da empresa, as três personagens sofrem um acidente. O detalhe é que elas não sabem que estão mortas. Aos poucos, o público percebe que aquele evento corporativo é, na verdade, o próprio gurufim das personagens.
A estrutura permite que o espetáculo transite entre a sátira ao universo empresarial, a comédia e uma reflexão sobre a própria existência. Ao brincar com a ideia de transformar até mesmo a morte em produto e serviço, a montagem cria uma situação absurda que também provoca o público a pensar sobre como cada pessoa gostaria de ser lembrada e de que maneira encara a própria finitude.
Entre o humor e a reflexão
A dramaturgia inédita de Alexandre Dantas aposta na relação direta com a plateia e na construção de uma experiência que rompe a separação tradicional entre palco e público. A morte, normalmente associada ao silêncio, à tristeza e ao ritual, aparece aqui sob outra perspectiva: como possibilidade de encontro, celebração e reinvenção.
A música tem papel fundamental nessa construção. Com direção musical e trilha sonora original de Alfredo Del-Penho, o espetáculo reúne três músicos que executam a trilha ao vivo, incorporando ritmos populares brasileiros à narrativa. A opção reforça a busca da CiaFaláCia por uma linguagem própria do teatro musical brasileiro, articulando dramaturgia, música, comicidade e participação do público.
Sob direção de André Paes Leme, com Claudia Ventura como diretora assistente e direção de movimento de Gabriela Kohatsu, o elenco reúne Sara Hana, Hugo Germano e Alexandre Dantas.
A concepção visual também participa da construção desse universo. O cenário é assinado por Teresa Abreu, o figurino por Marah Silva e a iluminação por Renato Machado e Diego Diener, enquanto Breno Lobo responde pelo desenho de som.
Uma trajetória dedicada à experimentação
“É O FIM! LTDA” dá continuidade à trajetória da CiaFaláCia, que desde 2008 vem experimentando diferentes possibilidades de linguagem teatral. Ao longo desse percurso, a companhia desenvolveu trabalhos relacionados à linguagem narrativa, levando aos palcos textos de grandes autores da literatura brasileira; à comédia física, explorando a relação entre uma atriz, um ator e duas cadeiras na construção da cena; além de releituras de clássicos e da investigação de uma linguagem brasileira para o teatro musical.
A nova montagem reúne diferentes elementos dessa trajetória em uma obra que procura equilibrar entretenimento e reflexão. O resultado é uma comédia musical que fala sobre a morte sem fazer dela um assunto necessariamente sombrio.
Em “É O FIM! LTDA”, o público é convidado a rir de uma situação aparentemente impossível: contratar, experimentar e escolher antecipadamente o próprio velório. Mas, por trás do absurdo, a peça propõe uma pergunta bastante concreta: se fosse possível planejar a própria despedida, como você gostaria que ela acontecesse?
Com classificação indicativa de 16 anos, o espetáculo tem idealização e realização da CiaFaláCia e reúne uma equipe artística e técnica formada por profissionais de diferentes áreas do teatro, da música e da produção cultural.
Talvez o grande “teste drive” proposto pela montagem não seja apenas o do gurufim. É também o da própria relação do público com a ideia do fim. E, nesse caso, a experiência começa antes da “derradeira hora”.
