“Capitu e Bentinho”: premiado espetáculo capixaba chega ao Teatro Dulcina com releitura contemporânea de Machado de Assis

Montagem do Grupo Teatral Caparaó estreia no Rio de Janeiro com uma abordagem que questiona relações de poder, misoginia e violência de gênero a partir do clássico “Dom Casmurro”

O clássico “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, ganha uma nova perspectiva nos palcos cariocas com a chegada de “Capitu e Bentinho”, espetáculo do Grupo Teatral Caparaó, do Espírito Santo. A montagem estreia em 1º de outubro no Teatro Dulcina, na Cinelândia, e permanece em cartaz até o dia 18, propondo uma releitura contemporânea de uma das histórias mais conhecidas da literatura brasileira.

Premiada no Espírito Santo, a produção chega ao Rio de Janeiro após conquistar o prêmio de Melhor Espetáculo do Espírito Santo no 10º Prêmio Super da Cultura Capixaba e receber outras sete premiações no 26º Festival Nacional de Teatro de Guaçuí. A temporada marca a estreia da montagem na capital fluminense, levando ao público carioca uma investigação cênica sobre memória, verdade, amor e relações de poder.

Afinal, Capitu traiu Bentinho? A pergunta que atravessa gerações de leitores continua mobilizando interpretações e debates. No romance de Machado de Assis, a narrativa em primeira pessoa conduz o leitor pela perspectiva de Bentinho, deixando em aberto questões fundamentais sobre os acontecimentos e a confiabilidade de quem conta a história.

Na adaptação teatral, o grupo desloca o olhar tradicional sobre o enredo e propõe uma reflexão que ultrapassa o mistério em torno da suposta traição. A montagem investiga como ciúme, paixão e controle podem interferir na construção de narrativas e na maneira como as mulheres são julgadas. A pergunta central passa a envolver também o direito de narrar, interpretar e estabelecer uma versão dos fatos.

Um clássico em diálogo com questões contemporâneas

Com direção e dramaturgia de Danyel Sueth, que também integra o elenco, o espetáculo aproxima a obra machadiana de discussões atuais sobre os direitos das mulheres, o combate à misoginia e a violência de gênero. A proposta é revisitar o clássico sem perder de vista as estruturas sociais e culturais que influenciam a forma como as relações afetivas são compreendidas.

“Vivemos em uma sociedade onde se torna cada vez mais urgente o debate sobre os direitos das mulheres; a garantia de proteção à vida; e o combate à violência de gênero, à misoginia e ao machismo. Revisitar um clássico, refazer questionamentos e aprofundá-lo na contemporaneidade é algo mais que oportuno, necessário. A ideia é subverter, questionar e dialogar com os anseios de agora”, afirma Sueth.

No palco, os intérpretes Bruna Frari e Danyel Sueth dão vida a Capitu e Bentinho em uma narrativa fragmentada e intensa. A encenação é acompanhada por música executada ao vivo pelos músicos Renan Silveira, na guitarra, Marcos Tadeu, no baixo, e Ronnie Silveira, na bateria. Algumas sessões contam ainda com a participação especial da atriz carioca Milena Paiva.

Para Bruna Frari, interpretar Capitu representa o encontro com uma personagem que permanece viva no imaginário cultural brasileiro. “Desafio porque é um clássico que faz parte do nosso imaginário e delicioso porque é tão significativo dar vida a uma mulher autêntica, inteligente e forte. Capitu foi um presente”, declara a atriz.

Ao revisitar a personagem sob uma perspectiva contemporânea, a montagem convida o público a reconsiderar certezas construídas ao longo de décadas de interpretações. Mais do que responder à pergunta que consagrou o romance, “Capitu e Bentinho” propõe examinar como as relações de poder influenciam a memória, a verdade e o julgamento das mulheres.

Grupo Teatral Caparaó: criação e pesquisa no Espírito Santo

Fundado em 2010, na cidade de Alegre, no sul do Espírito Santo, o Grupo Teatral Caparaó desenvolve trabalhos voltados à criação, à pesquisa e à circulação de espetáculos com identidade autoral e diálogo com questões contemporâneas.

Ao longo de sua trajetória, o grupo construiu uma atuação cultural na região do Caparaó, explorando tanto dramaturgias originais quanto releituras de clássicos da literatura e do teatro mundial. Sua pesquisa combina experimentação cênica, valorização do trabalho do ator e integração entre teatro, música e recursos audiovisuais.

Além da produção de espetáculos, o coletivo realiza iniciativas de formação artística, mostras, oficinas e projetos culturais, buscando ampliar o acesso à cultura. Com a chegada ao Teatro Dulcina, o grupo apresenta ao público do Rio de Janeiro uma produção que articula patrimônio literário brasileiro, pesquisa teatral e questões sociais do presente.

Serviço

Espetáculo: Capitu e Bentinho
Grupo: Grupo Teatral Caparaó
Direção e dramaturgia: Danyel Sueth
Elenco: Bruna Frari, Danyel Sueth e Milena Paiva
Local: Teatro Dulcina, Rua Alcindo Guanabara, 17, Cinelândia, Rio de Janeiro
Temporada: 1º a 18 de outubro de 2026
Horários: De quinta a sábado, às 19h; domingos, às 18h
Atenção: Não haverá sessão no domingo, 4 de outubro.
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Vendas: https://www.sympla.com.br/capituebentinho
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Realização: Grupo Teatral Caparaó
Apoio: Fundação Nacional de Artes (Funarte), Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e Centro de Artes Calouste Gulbenkian
Instagram: @grupoteatralcaparao
Site: www.grupoteatralcaparao.com.br

Nando Andrade

Nando Andrade

Produtor cultural, produtor executivo e diretor de produção audiovisual, com mais de 18 anos de experiência em projetos culturais, entretenimento, eventos e audiovisual. É fundador da Visuallyze e atua na gestão, produção e desenvolvimento de projetos culturais e audiovisuais no Brasil.