As protagonistas do cinema: mulheres na vanguarda da modernidade
As protagonistas do cinema: mulheres na vanguarda da modernidade
Por Tainan Lisboa
George Méliés e Charles Chaplin, são dois nomes importantíssimos para a história do cinema. Seus filmes são lembrados até os dias atuais e serviram de inspiração para os futuros cineastas, pois construíam filmes já com clara intenção de fazer obras ficcionais e não mais como simples registros da realidade.
Por todos os anos em que o cinema foi se desenvolvendo como uma forma de arte independente das demais artes, os nomes masculinos se fizeram presentes, dando a entender que a sétima arte, sempre foi um campo, no que diz respeito à direção, estritamente masculino.
Porém o que pouco se desconhece é que grandes mulheres, no período de 1902 a 1930 do século XX, também foram responsáveis por ajudar a formar o cinema, do modo como o conhecemos atualmente, não por serem atrizes, mas por serem cineastas no mais verdadeiro sentido da palavra.
Uma delas é Alice Guy Blaché.
Quando a mulher é a dona do pedaço
A francesa Alice Guy Blaché foi uma das primeiras a ter um estúdio cinematográfico – o Solax Company , nos EUA e a dirigi-lo. Imagine a força dessa atitude em 1910, mesmo que não estivesse sozinha no empreendimento! Os outros sócios eram Herbert Blaché – seu marido à época – e George A. Magie.
O Solax Companhy foi , por causa do arrojo de suas produções bem sucedidas, um percursor do esquema de produção cinematográfica que se desenvolveria em Hollywood.
Blaché foi diretora, atriz, roteirista entre outras atividades típicas do audiovisual.

Como possuía grande apreço por literatura, viu nos filmes uma oportunidade de contar narrativas, como se pode constatar pelo filme A fada dos Repolhos, uma história que possui pitadas de fantasia, pois os bebês nasciam de repolhos. Porém, seus filmes não continham somente o fantástico, Alice também retratava a sociedade da época e a criticava como vemos em Os Resultados do Feminismo. Nesse filme, mulheres e homens trocavam os papéis sociais que cumpriam. Se até hoje em dia essa discussão gera debates acalorados, imagine nos anos 1900?
Entretanto, Alice não recebeu, por muito tempo, o mesmo reconhecimento na construção do cinema e da indústria cinematográfica da mesma forma que ocorreu com ocorreu com os pioneiros Méliés ou Chaplin. Ambos têm seus nomes marcados na indústria cinematográfica e sempre são reverenciados tanto em livros especializados, quanto entre críticos e cinéfilos. Já Alice Guy Blaché, após a falência de seu estúdio originada entre outras dificuldades de problemas advindos do fim do casamento com Herbert, caiu no esquecimento junto com suas obras.
Lois Weber – o pioneirismo do cinema feminino engajado

Outra mulher bastante importante para o desenvolvimento do cinema é Lois Weber. Ela, inclusive, foi responsável por criar várias estruturas para a linguagem do audiovisual, tais como a divisão de telas ao utilizar a técnica do split-screen presente em seu filme “Suspense”(1913). Assim o público pode acompanhar a crescente tensão entre os personagens envolvidos no conflito em torno do qual a trama girava.

Seus filmes possuíam um teor crítico que estavam à frente do seu tempo. Um bom exemplo é o filme “Where are my Children?”, em que abordava temas como métodos contraceptivos e a liberdade da mulher em se tornar mãe por sua vontade , aborto e diferenças entre classes sociais. Essa temática refletia o período em que Lois Weber, como missionária, prestava assistência social aos desvalidos, entre eles muitas prostitutas.
Outra obra de Weber que também possui críticas à sociedade é o famoso “The Hypocrites”(1915),no qual ousa em mostrar um nu feminino frontal. A obra também aborda temas como religião e as hipocrisias existentes dentro de diferentes estratos sociais. Weber era uma diretora que utilizava o cinema como fonte de discussões sobre a sociedade .
Fez grande sucesso, mas infelizmente não conseguiu se manter após a transição do cinema mudo para o som e ela caiu no esquecimento como tantos outros cineastas e atores.
Todavia o que Alice Guy Blaché e Lois Weber possuem em comum, além da genialidade, é a obscuridade forçada no meio cinematográfico: suas filmografias possuem impactos equivalentes aos nomes, masculinos relevantes do cinema, eis porque a importância de se descobrir essa história pouco contada, mas certamente conhecida por cineastas tais como Agnés Varda, Jodie Foster ou as nossas brasileiras Anna Muylart e Petra Costa que se tornam – em certo sentido- herdeiras do trabalho que essas duas mulheres incomparáveis nos deixaram.
Para aqueles que querem conhecer um pouco mais sobre essas mulheres cineastas, a editora Obras Primas organizou uma caixa box chamada As Pioneiras do Cinema.
Além de Guy Blaché e Lois Weber, traz filmes de outras cineastas dessa mesma época, entre elas a da cineasta Mabel Normand que ensinou Charles Chaplin a dirigir, imagine só ! O preço é acessível entre R$ 80.00 e R$ 90,00 e você comprar online.
Enfim, só nos resta dizer: viva a força e a sensibilidade do olhar feminino sobre o a modernidade do mundo em que a arte se realizava através da técnica.