Dia da Consciência Negra: um bom dia para ver O Xadrez das Cores
Nesse 20 de novembro de 2021 chuvoso e preguiçoso, assistir a um filme com uma pipoquinha quente é sempre uma excelente pedida.
Mas bate aquela culpa: dia da Consciência Negra é dia de ativismo, de despertar consciências, de denunciar arbitrariedades e violências contra o povo negro do Brasil que agora faz absoluta questão de ser chamado de povo preto. Então como é que fica ?
A gente pode ir ao cinema assistir ao Marighella ! Mas a chuva e o frio ? E a preguiça ?
A gente pode navegar pela Internet e descobrir ou redescobrir uma pequena obra-prima do cinema nacional, o curta metragem O Xadrez das Cores . Encontra-se disponível no Amazon, mas também gratuitamente nos canais José Sales Neto ou no Diana Class Toledo no You Tube.
Dirigido e roteirizado por Marco Schiavon , esse curta de 2004 é estrelado pela grande Zezeh Barbosa e pela saudosa Myriam Pires num difícil papel de ser uma racista de cuja boca saem pérolas dos politicamente incorretos fascitóides do triste Brasil de 2021.
Nesses 17 anos de existência do filme, deu 17 na cabeça e o Brasil racista desnudou-se sem nenhum pudor.
O filme retrata a trajetória da relação entre duas mulheres, Cida (Zezeh Barbosa) – a empregada- e Myriam Pires, a patroa idosa Maria.
Maria é a cara dos eleitores raivosos de 2018, amargurados, rancorosos, pequenamente mesquinhos. Humilha repetindo uma série de fórmulas verbais a empregada preta. Não alivia nem para Nossa Senhora Aparecida. Imagine só, um país cuja padroeira é uma mulher que é preta retinta ?!
Nesse ambiente carregado de tensões, a empregada tem acesso à uma nova informação: o jogo de xadrez que na permuta com acerolas tiradas do seu quintal, consegue fazer a patroa ensinar.
Mas a patroa aproveita mais uma oportunidade para reafirmar sua “natural” superioridade branca no domínio de um jogo que no contexto de desigualdades brasileiras simboliza o acesso à cultura erudita negada a tantos.
O acaso, contudo, vira literalmente o jogo quando faz Cida encontrar, num camelô, um jogo e um livro de xadrez, instrumentos que lhe permite treinar em casa.
O xadrez como célula mater do enredo
Toda a beleza desse delicado roteiro, delicadeza que contrasta com a violência do racismo e da exclusão social, está precisamente no fato de as duas mulheres começarem um embate a partir do jogo de xadrez.
O xadrez, além de ser um jogo de estratégia, de fazer pensar, une em si mesmo toda a trajetória humana, pois embora tenha tido sua origem no Oriente (Índia e Pérsia) chegou ao Ocidente pelo intercâmbio de culturas consequente das Cruzadas. Então é um jogo que fala do ser humano efetivamente.
E nesse “santo” combate, o jogo – que reproduz uma batalha em uma sociedade fortememente estratificada – forneceu, segundo artigo de Marcelo Andrade ( A Simbologia do Xadrez : https://floscarmeliestudos.com.br/a-simbologia-do-xadrez/) matéria-prima para sermões católicos.
O artigo também ressalta que além de simbolizar um combate interior entre os homens, o xadrez é uma representação do trilhar o caminho da Virtude, da nossa jornada interior. E realmente, ao final do filme Cida e Maria haverão trilhado cada qual o seu caminho , a partir dos seus lugares sociais distintos, das suas demandas emocionais e existenciais, e encontrado em si mesmas virtudes inimagináveis anteriormente. Mas chegarão a um mesmo lugar: o lugar em que todos nos reconhecemos como seres humanos.
O jogo baseia-se no que Marcelo Andrade nomeia como desigualdade, mas que no Brasil de 2004 passava a ser também encarado como diversidade que é o que forma e faz funcionar um coletivo humano. A estrutura do jogo baseia-se na funcionalidade que diferentes formas das peças, movimentos e importância de cada tipo de peça desempenham no jogo. Reconhecer que mesmo diferentes podem ser fundamentais para uma vitória diminui em muito a nossa tendência a preconceitos e esteriótipos.
O xadrez e o mergulho no universo feminino
Enfim, o xadrez traz em termos de carga simbólica uma profunda ligação com a espiritualidade, e por isso também nos encaminha para os territórios do feminino.
Curiosamente, o jogo tem um padroeiro, ou melhor uma padroeira : Santa Teresa de Ávila, Doutora da Igreja.Um título importante numa instituição fortemente masculina e patriarcal.
E nesse caminho da perfeição que o xadrez pode ser uma metáfora , um simples peão – peça que representa o mais simples elemento da cadeia social, que não sabe recuar e que se atravessar todo tabuleiro pode transformar-se na Rainha, a peça mais poderosa do jogo, apesar de também estar inserida num universo majoritariamente masculino.
Nesssa perspectiva, o roteiro ao colocar as duas mulheres interligadas pelo xadrez insere-nos , inconscientemente nas questões do feminino num país em que as mulheres, os pretos e as mulheres pretas apesar de serem numericamente a maioria da população, são vistas como minorias.
Schiavon, apesar de ser homem e não estar no “lugar de fala” que lhe permita falar da mulher, escreve um roteiro que atinge pontos fundamentais para nós mulheres. E demonstra que o artista pode falar sobre tudo, porque pela sensibilidade que possui, ocupa sempre um lugar de escuta. De escuta de um outro que necessariamente não é igual a ele.
Nesses 17 anos que se passaram desde o lançamento do filme o Brasil mudou muito e mudou para pior. Não sei se o filme receberia os prêmios de Melhor Filme pelo júri popular num estado como Goiás ou numa cidade como Curitiba como ocorreu em 2005. Não sei se haveria suporte para a produção de filmes nacionais e de filmes como este com temática espinhosa e com a celebração do amor e da paz entre os homens ou as mulheres deve incomodar quem curte odiar, destruir e dividir.
O que podemos fazer é pedir a Nossa Senhora da Aparecida, nossa ilustre padroeira, derrame suas bençãos sobre nós e opere um milagre como fez no filme e nos reconduza a um bom caminho, para que a democracia racial deixe de ser um mito brasileiro e se torne uma realidade concreta. E, esperta como ela só sabe ser, vai pedir uma mãozinha pra Santa Teresa de Ávila.
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