Estudantes da FAETEC discutem o silenciamento do corpo negro na sociedade contemporânea

Inspirado em obras da literatura negra e em visita ao Museu Memorial dos Pretos Novos, projeto apresentado na XXIV Semana de Cultura, Ciência e Tecnologia propõe reflexão sobre racismo, apagamento histórico e valorização de vozes negras.

Como o corpo negro continua sendo silenciado na sociedade contemporânea? Quais ideias, experiências e narrativas ainda enfrentam resistência para serem reconhecidas? Essas são algumas das questões que orientam o projeto Estratégias de Silenciamento do Corpo Negro, desenvolvido por estudantes da Escola Técnica Estadual República, em Quintino, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e apresentado durante a XXIV Semana de Cultura, Ciência e Tecnologia da instituição.

A pesquisa propõe uma reflexão sobre as formas atuais de silenciamento da população negra, investigando como o racismo se manifesta nas relações sociais, na produção de conhecimento e na maneira como a história e as experiências negras são reconhecidas ou invisibilizadas.

O grupo é formado por Heloah Nogueira dos Santos, Sophia Paiva, Kaylane Daniel, Karen Daniel e Victor Hugo Tavares. O trabalho conta com orientação de Marco Antônio Santos e coorientação de Michele de Souza.

Literatura e memória como fontes de inspiração

Entre as referências que inspiraram o projeto está o livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, obra que aborda a história da população negra no Brasil a partir de uma narrativa marcada pela escravidão, pela resistência e pela busca de identidade e pertencimento.

Outra importante inspiração para os estudantes foi a visita ao Museu Memorial dos Pretos Novos, na região da Pequena África, na Zona Portuária do Rio de Janeiro. O espaço preserva a memória dos africanos escravizados que morreram após chegar ao Brasil e convida à reflexão sobre as marcas da escravidão na formação da sociedade brasileira.

O contato com a memória histórica e com a literatura negra ajudou a fundamentar as discussões do grupo, que busca estabelecer conexões entre o passado e as formas contemporâneas de racismo e apagamento.

Além de Um defeito de cor, a pesquisa reúne referências de autores como Franz Fanon, Achille Mbembe, Djamila Ribeiro, Lélia Gonzalez e Cida Bento. As obras abordam questões como identidade racial, relações de poder, lugar de fala, desigualdade e os mecanismos que contribuem para a manutenção do racismo.

Novas gerações questionam e pesquisam

Um dos aspectos levantados pelos estudantes é a percepção de que os jovens têm demonstrado maior interesse em questionar as estruturas sociais e pesquisar temas relacionados à história e à cultura negra.

Embora reconheçam mudanças na forma como essas questões são debatidas, os integrantes do grupo chamam a atenção para a permanência de resistências a ideias e conhecimentos produzidos por autores negros. Para os estudantes, ainda há reflexões presentes na literatura negra que encontram dificuldade de aceitação e reconhecimento em diferentes espaços sociais.

A proposta, portanto, não se limita a identificar situações de silenciamento. O projeto procura criar espaço para que vozes historicamente marginalizadas sejam ouvidas, reconhecidas e incorporadas ao debate educacional.

Essa perspectiva também reforça o papel da escola como ambiente de formação crítica, produção de conhecimento e valorização da diversidade. Ao investigar o racismo para além de suas manifestações explícitas, os estudantes buscam compreender como determinadas narrativas são legitimadas, enquanto outras permanecem à margem.

Conhecimento que se transforma em ação

A pesquisa também está associada a uma iniciativa concreta de contribuição social: o grupo pretende realizar uma doação ao Instituto INACRE, localizado em Madureira, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

A iniciativa amplia o alcance do trabalho para além da apresentação acadêmica, aproximando a reflexão desenvolvida pelos estudantes de uma ação de solidariedade e participação social.

Ao reunir pesquisa bibliográfica, referências da literatura negra, memória histórica e discussão sobre a realidade contemporânea, Estratégias de Silenciamento do Corpo Negro propõe um debate necessário sobre quem tem espaço para falar, quais histórias são reconhecidas e como a sociedade pode enfrentar práticas que perpetuam desigualdades raciais.

Apresentado na XXIV Semana de Cultura, Ciência e Tecnologia da Escola Técnica Estadual República, o projeto evidencia o potencial da pesquisa escolar para estimular o pensamento crítico e incentivar os jovens a participar ativamente da construção de uma sociedade que reconheça a pluralidade de suas histórias, culturas e vozes.

Nando Andrade

Nando Andrade

Produtor cultural, produtor executivo e diretor de produção audiovisual, com mais de 18 anos de experiência em projetos culturais, entretenimento, eventos e audiovisual. É fundador da Visuallyze e atua na gestão, produção e desenvolvimento de projetos culturais e audiovisuais no Brasil.