Patricia Rodrigues e a construção de um novo lugar para as mulheres no samba

Fundadora do Movimento das Mulheres Sambistas, Patricia Rodrigues constrói redes de formação, profissionalização e acolhimento e ajuda a ampliar o protagonismo feminino na cena do samba carioca

 

Patricia Rodrigues aprendeu, ao longo de sua trajetória no samba, que ocupar espaços também é uma forma de transformar realidades. Em 2019, essa percepção ganhou forma com a criação do Movimento das Mulheres Sambistas, iniciativa que nasceu para fortalecer mulheres, criar oportunidades e enfrentar as desigualdades de gênero presentes no universo do samba. @movimentodasmulheressambistas 

“É um desafio em um país tão machista como o nosso. Quando existe um grupo somente de mulheres, logo perguntam: por que estão segregando os homens? Ninguém para para pensar no contrário. Por que ninguém questiona uma roda de samba que só tem homem?”, provoca Patricia.

À frente do Movimento, ela transformou a experiência acumulada em uma rede de ações que reúne cultura, formação, assistência social e profissionalização. A proposta é criar condições para que mulheres, especialmente negras e periféricas, possam desenvolver seus talentos, acessar recursos, ocupar palcos e construir autonomia dentro e fora do samba.

 

De uma iniciativa voluntária a uma rede de formação

O Movimento começou em 2019, inicialmente com 27 mulheres, com o objetivo de criar alternativas de sustentabilidade financeira para as sambistas. A Casa da Mulher Sambista tornou-se uma de suas principais frentes, tendo a sambista Laís Viana como primeira oficineira do projeto.

Até 2022, as oficinas eram realizadas de forma voluntária. A consolidação do trabalho levou Patricia a buscar novos caminhos para garantir a sustentabilidade das iniciativas. Durante a pandemia, entretanto, as prioridades mudaram.

O Movimento passou a atuar também na assistência emergencial a mulheres e comunidades, mobilizando recursos para a aquisição e distribuição de cestas básicas e outros auxílios.

Foi durante esse período que Patricia se especializou na elaboração e inscrição de projetos em editais. A experiência resultou em novas oportunidades, entre elas a aprovação de projetos no Oi Futuro e a realização de ações especiais pelo Dia da Mulher na Fundição Progresso.

Atualmente, Patricia também ministra oficinas de Elaboração de Projetos e Captação de Recursos na Fundição Progresso, compartilhando com outros agentes culturais ferramentas para transformar ideias em projetos viáveis.

 

Uma nova casa para o Movimento

O trabalho ganhou um novo espaço físico em 2026, com a inauguração da sede do Movimento na Rua Teófilo Otoni. A atuação também se articula com espaços como a Fundição Progresso e o Centro de Referência da Música, ampliando as possibilidades de formação, encontros e desenvolvimento de projetos.

Entre as principais iniciativas estão a Casa da Mulher Sambista e a Casa das Sambistinhas, voltadas, respectivamente, ao fortalecimento das mulheres e à formação de novas gerações.

Desde 2019, o Movimento já realizou projetos que ofereceram milhares de vagas gratuitas em oficinas, rodas de conversa, formações, atividades culturais e ações de valorização da história das mulheres no samba.

A atuação alcança majoritariamente mulheres negras e periféricas e também estimula a criação de redes, a ocupação de palcos, a produção musical e a realização de espetáculos.

 

“O que mais trava as pessoas é achar que não conseguem”

Patricia costuma dizer, em tom de brincadeira, que “as mulheres vão dominar o mundo”. A frase, porém, ganha outro significado quando ela explica sua visão sobre o Movimento.

“Não é no sentido de tomar conta e fazer o que quisermos, mas sim como viver melhor, com coletivismo de acessos, ações e posições de lugar”, afirma.

Para Patricia, muitas mulheres não deixam de ocupar determinados espaços por falta de capacidade, mas porque nunca tiveram acesso a eles. A ausência de oportunidades, de referências e, muitas vezes, de lugares seguros para aprender faz com que determinados ambientes pareçam distantes ou inacessíveis.

É por isso que, para ela, formação e acolhimento caminham juntos. Antes de ocupar um palco, uma roda ou uma função de liderança, é preciso ter a oportunidade de experimentar, aprender e perceber que aquele espaço também pode ser seu.

“Quando você nunca esteve em determinado lugar, é muito mais difícil acreditar que consegue chegar lá”, é a lógica que orienta esse trabalho.

Assim, uma das missões do Movimento é justamente criar ambientes seguros nos quais as mulheres possam aprender, se expressar, desenvolver suas habilidades e conquistar autonomia. O objetivo não é apenas abrir portas, mas criar condições para que elas se sintam preparadas e legitimadas para atravessá-las.

Esse trabalho já repercute na cena do samba carioca. Grupos como Abyás do Samba, Roda Tristeza e Canto Mulher são exemplos de iniciativas que nasceram ou se fortaleceram dentro das redes construídas pelo Movimento e que hoje vêm conquistando visibilidade.

A trajetória de Patrícia Rodrigues revela, assim, uma atuação que ultrapassa a organização de eventos ou oficinas. Ao transformar sua própria experiência em conhecimento compartilhado, ela vem ajudando a construir uma rede na qual mulheres sambistas possam não apenas participar da roda, mas também ocupar o centro dela, como artistas, produtoras, gestoras, educadoras e protagonistas de suas próprias histórias. @paticult