Sustentabilidade ganha espaço e transforma a cultura na produção audiovisual
Com experiência em televisão, cinema e grandes produções, Ailton Junior atua na implementação de práticas sustentáveis e mostra por que reduzir impactos ambientais precisa começar antes mesmo de a câmera entrar em ação
Durante muito tempo, falar em sustentabilidade no audiovisual significava, principalmente, pensar no que fazer com o lixo produzido durante uma gravação. A separação de resíduos, a reciclagem e a destinação correta continuam importantes, mas hoje representam apenas uma parte de uma discussão muito maior.
Deslocamentos de equipes, escolha de fornecedores, consumo de energia e água, uso de materiais, alimentação, logística, contratação de profissionais locais, impacto sobre as comunidades e até as emissões de carbono associadas a uma produção entram nessa equação. É nesse cenário que ganha espaço uma função ainda relativamente nova no mercado audiovisual: o profissional responsável por pensar, planejar e acompanhar a sustentabilidade de uma produção.
Com uma trajetória construída em televisão, cinema, reality shows, sitcoms e diferentes formatos de entretenimento, Ailton Junior vem direcionando sua experiência em produção para esse novo desafio. Atualmente, atua na coordenação de processos de sustentabilidade em produções audiovisuais, acompanhando operações, identificando impactos e buscando alternativas que tornem os sets mais responsáveis e eficientes.
Sua experiência profissional inclui produções exibidas ou destinadas a plataformas e canais como Netflix, Amazon Prime Video, Globoplay, Gloob, Multishow e GNT. Entre os projetos relacionados à sua trajetória estão O Dono do Lar, Tem Que Suar, Lady Night, De Férias com o Ex Brasil, Miraculous Day e Diário de um Mago, entre outros.
A sustentabilidade começa antes do primeiro dia de gravação
Para Ailton, o trabalho começa muito antes de a equipe chegar ao set. É preciso compreender as características do projeto, analisar onde ele será realizado, identificar os recursos disponíveis e antecipar os possíveis impactos da operação. A partir desse diagnóstico, entram em cena o mapeamento de fornecedores, a definição de processos e a criação de estratégias capazes de reduzir desperdícios e impactos.
Essa visão também amplia o próprio conceito de sustentabilidade. Um exemplo está nos deslocamentos. Quando uma produção leva profissionais de outra cidade ou estado para uma gravação, a decisão envolve muito mais do que uma questão de logística. Ela pode representar viagens adicionais, consumo de combustível e aumento das emissões de carbono.
Por outro lado, priorizar profissionais e fornecedores locais pode reduzir deslocamentos e, simultaneamente, movimentar a economia da comunidade onde a produção acontece.
Na prática, uma decisão tomada ainda na fase de planejamento pode produzir consequências ambientais, sociais e econômicas ao longo de toda a operação.
Mudar processos também significa mudar uma cultura
Se, no papel, a sustentabilidade pode parecer simples, sua implementação dentro de um set é bastante mais complexa. Uma produção audiovisual reúne equipes numerosas, diferentes departamentos, fornecedores, equipamentos, locações e prazos muitas vezes apertados. Qualquer mudança de procedimento precisa ser incorporada a uma operação que já funciona em ritmo acelerado.
Por isso, o trabalho de um coordenador de sustentabilidade não se resume a estabelecer regras. É necessário conversar com os diferentes departamentos, identificar resistências, explicar procedimentos e, principalmente, mostrar por que determinada mudança é importante.
A experiência de Ailton está justamente na interseção entre produção e sustentabilidade: compreender a dinâmica de um set para encontrar soluções que possam ser efetivamente aplicadas à rotina. A mudança, nesse sentido, também passa pela educação das equipes. Quanto maior a compreensão sobre os impactos de cada escolha, maior a possibilidade de transformar uma orientação pontual em uma prática incorporada ao cotidiano.
Cada produção tem uma pegada diferente
Não existe uma receita única para tornar uma obra audiovisual mais sustentável. Um reality show, uma sitcom gravada em estúdio, uma produção realizada em diferentes locações ou uma obra que exige deslocamentos constantes apresentam desafios completamente distintos. Por isso, cada projeto precisa ser analisado individualmente.
No trabalho desenvolvido em parceria com a Cinema Verde, Ailton participa do planejamento e da coordenação de processos sustentáveis, acompanha gravações em diferentes localidades, atua na gestão de resíduos e na redução de impactos ambientais, orienta equipes e contribui para o levantamento de dados que alimentam o painel ESG dos projetos.
A etapa de mensuração é fundamental. Não basta adotar práticas sustentáveis: é necessário registrar o que foi feito, avaliar resultados e identificar onde ainda existem oportunidades de melhoria. Dessa maneira, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma intenção e passa a fazer parte dos indicadores da própria produção.
Quando sustentabilidade vira estratégia
O movimento ainda está em consolidação no Brasil, mas a discussão vem ganhando espaço dentro do mercado audiovisual. Para Ailton, a diferença está no estágio de maturidade de cada empresa.
“Hoje ainda está se estabelecendo esse olhar entre as produtoras, mas já é padrão consolidado nos grandes players”, afirma.
A existência de profissionais especializados e de metodologias específicas para medir e reduzir impactos mostra que o tema começa a deixar de ser uma ação isolada para entrar no planejamento das produções. A própria trajetória de Ailton acompanha essa transformação. Com experiência acumulada em diferentes áreas da produção, ele passou a incorporar cada vez mais responsabilidades relacionadas à infraestrutura, aos processos e às práticas sustentáveis.
Um dos exemplos associados à sua trajetória é O Dono do Lar, produção que recebeu, em 2025, o selo Gold de produção sustentável da Environmental Media Association (EMA), reconhecimento internacional relacionado às práticas ambientais adotadas durante a realização da obra.
A certificação ajuda a ilustrar uma mudança que ultrapassa a preocupação individual de uma equipe: empresas e produções começam a estabelecer metas, procedimentos e indicadores para acompanhar seus impactos. A medida que esse movimento avança, a sustentabilidade tende a ocupar um espaço cada vez mais estratégico dentro da cadeia audiovisual.
Antes de compensar, é preciso evitar
Outro ponto importante dessa discussão é a compensação de carbono. Créditos de carbono, projetos de reflorestamento e outras iniciativas podem fazer parte das estratégias de uma produção. Mas o caminho mais eficiente começa antes da compensação: está na prevenção e na redução do impacto.
Se um deslocamento pode ser evitado, se um fornecedor local pode ser priorizado, se determinado material pode ser reutilizado ou se o consumo de um recurso pode ser reduzido, o impacto deixa de existir ou diminui antes mesmo de ser necessário pensar em compensá-lo. É aí que o planejamento ganha protagonismo.
Sustentabilidade no audiovisual não é apenas colocar novas lixeiras no set. É repensar a própria maneira de produzir. Em uma indústria que movimenta pessoas, equipamentos, veículos, fornecedores, alimentação, estruturas e recursos para transformar uma ideia em conteúdo, cada escolha produz uma consequência.
E é justamente nesse espaço entre o planejamento e a execução que profissionais como Ailton Junior começam a construir uma nova maneira de fazer audiovisual: mais consciente, mensurável e preparada para os desafios ambientais e sociais do futuro.
