Entre o palco e a plateia, Áurea Xavier constrói pontes
Há quem descubra o teatro ainda na infância. Outros encontram a arte apenas na vida adulta. Para Áurea Xavier, de 43 anos, servidora pública da Justiça do Trabalho, mãe de quatro filhos e mulher autista, o palco surgiu como um chamado que ultrapassou o desejo de atuar. Transformou-se em uma missão: fazer com que cada vez mais pessoas ocupem as plateias dos teatros.
Estudante do curso técnico de Teatro da Escola Técnica Estadual Martins Penna, Áurea Xavier concluiu todas as disciplinas da graduação em Comunicação Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em razão de sua neuro-divergência, recebeu da instituição autorização para concluir a monografia em um momento mais adequado ao seu processo de aprendizagem. Áurea nunca acreditou que existisse idade certa para começar uma nova trajetória. Mesmo ouvindo comentários de que teria chegado “tarde” ao universo das artes cênicas, escolheu seguir sua vocação.
Hoje, enquanto prepara novos passos na carreira artística, já mira um novo desafio: ingressar na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), por meio do Enem, para aprofundar sua formação. O sonho é atuar profissionalmente como atriz e, no futuro, dedicar-se também à curadoria teatral.
Mas foi antes mesmo de subir aos palcos que Áurea encontrou uma maneira singular de contribuir com a cena cultural. Tudo começou a partir do projeto Caminhos da Cena, iniciativa idealizada pela professora Carla Costa, da UNIRIO. A proposta era simples: incentivar estudantes a assistirem ao maior número possível de espetáculos ao longo do ano. Como estímulo, seria concedido um prêmio ao participante mais assíduo.
O que poderia ter sido apenas uma competição saudável tornou-se uma verdadeira imersão no universo teatral. Áurea passou a estudar a programação dos equipamentos culturais da cidade, compreender o funcionamento das políticas de acesso, conhecer os mecanismos de solicitação de cortesias e, sobretudo, perceber que muitas pessoas desejavam frequentar o teatro, mas não sabiam por onde começar.
Ela conquistou o segundo lugar na iniciativa, mas o impacto do projeto extrapolou qualquer classificação. O Caminhos da Cena ganhou reconhecimento da Secretaria Municipal de Cultura e, posteriormente, recebeu o apoio do Prêmio Shell de Teatro, ampliando seu alcance. Áurea também foi reconhecida por sua participação e engajamento.
Movida pelo desejo de democratizar o acesso às artes cênicas, criou a comunidade Ocupação Teatro do Afeto, um grupo que reúne estudantes, artistas, profissionais da cultura e apaixonados pelo teatro. O espaço funciona como uma rede colaborativa de compartilhamento de informações sobre programação cultural, cortesias, ações de formação de plateia e oportunidades de acesso aos espetáculos.
Em pouco tempo, a iniciativa ultrapassou a marca de 1.600 participantes, tornando-se uma referência informal para quem deseja acompanhar a produção teatral da cidade.
“Nossa forma de comunicar precisa ser afetiva para serem efetivas”, resume Áurea.
A frase sintetiza o espírito do projeto. Mais do que distribuir informações, ela busca criar vínculos entre pessoas que compartilham o interesse pela arte, fortalecendo uma rede baseada na colaboração e no pertencimento.
Seu trabalho também estabeleceu diálogo com importantes instituições culturais, entre elas SESI Firjan, Sesc Copacabana, Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Teatro Poeira e diversos outros espaços que reconhecem a importância da formação de plateia para a sustentabilidade da produção artística.
Conciliar o voluntariado com a rotina profissional, os cuidados com os filhos, as demandas relacionadas à saúde e os desafios financeiros exige força de vontade e persistência. Ainda assim, ela faz questão de manter o projeto ativo, sem qualquer cobrança aos participantes.
“Faço esse trabalho porque gosto. Sou servidora pública e acredito em prestar um serviço sem custos às pessoas que fazem parte do grupo”, afirma.
Sua atuação também dialoga diretamente com um dos maiores desafios do teatro contemporâneo: formar público. Em uma época marcada pela disputa constante da atenção e pelo consumo acelerado de conteúdo digital, incentivar a presença nas salas de espetáculo tornou-se uma ação estratégica para a sobrevivência das artes cênicas.
É justamente nesse ponto que a trajetória de Áurea Xavier ganha um significado que vai além de sua história pessoal. Ao transformar sua paixão pelo teatro em uma rede de acolhimento, informação e acesso, ela mostra que a democratização da cultura não depende apenas de grandes políticas públicas. Também nasce da iniciativa de pessoas dispostas a construir pontes entre o palco e a plateia.
Enquanto se prepara para novos desafios acadêmicos e artísticos, Áurea segue fiel ao propósito que encontrou no teatro: fazer com que cada espetáculo assistido seja também um convite para que outras pessoas descubram, na arte, um espaço de encontro, pertencimento e transformação.
Em um tempo em que tanto se discute a formação de novos públicos para as artes, iniciativas como a de Áurea Xavier mostram que essa transformação também acontece de forma silenciosa, por meio do trabalho voluntário de quem acredita que ocupar uma cadeira na plateia pode ser o primeiro passo para mudar uma vida. O teatro só acontece plenamente quando artistas e espectadores compartilham o mesmo encontro.
Entre na comunidade Ocupação Teatro do Afeto: https://chat.whatsapp.com/EQ4g9ipHKd19wxfYYXfZ6C?s=cl&p=a&ilr=1
