Hannah Cacy Potiguar: ancestralidade indígena que ganha voz e presença no Rio de Janeiro

Artista popular e guardiã de saberes da etnia Potiguar, paraibana leva às escolas, universidades e espaços culturais a memória e a força dos povos originários

 

Nascida em Cachoeira dos Índios, no sertão da Paraíba, Hannah Cacy Potiguar carrega em sua trajetória a força de uma ancestralidade que atravessa gerações. Mulher indígena da etnia Potiguar, artista popular e guardiã de saberes culturais, ela encontrou na arte, na memória e na educação caminhos para manter vivas histórias e tradições de seu povo.

Moradora do Rio de Janeiro, Hannah também representa uma realidade ainda pouco conhecida: a presença indígena nas grandes cidades. Longe de seu território de origem, ela preserva sua identidade e transforma diferentes espaços urbanos em lugares de afirmação, conhecimento e valorização da cultura indígena.

Sua trajetória ganhou destaque em 2022, a partir da pesquisa “Akangatu, o Levante da Memória: Ensino de História e Letramento Patrimonial em Cachoeira dos Índios-PB”, conduzida pelo professor Djalma Luiz do Nascimento Dantas. O trabalho investigou vestígios arqueológicos com mais de 800 anos e contribuiu para revelar a presença histórica dos povos tupis na região.

A pesquisa também promoveu um processo de reconhecimento da memória e do patrimônio ancestral de Cachoeira dos Índios. Nesse percurso, Hannah Cacy Potiguar passou a ser reconhecida como uma importante expressão contemporânea dessa continuidade histórica, ao preservar e compartilhar saberes, histórias e práticas culturais relacionadas à identidade Potiguar.

Mais do que encontrar vestígios materiais do passado, o trabalho ajudou a evidenciar que a ancestralidade indígena permanece viva no presente. Hannah tornou-se, assim, uma ponte entre diferentes gerações, conectando a memória de seus antepassados às novas gerações por meio da arte e da educação.

Desde então, sua atuação vem se ampliando. Hannah participa de feiras, exposições, encontros culturais e atividades educativas. Entre essas experiências está a participação na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia da Fiocruz, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, onde apresentou a exposição “Achados para uma Cachoeira dos Índios/PB”.

Outro elemento importante de sua atuação é a apresentação da dança tradicional do “Cavalo Relâmpago” em escolas e centros culturais. Ao levar essa manifestação para crianças e jovens, Hannah cria uma oportunidade de contato direto com referências culturais indígenas, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre os povos originários para além dos estereótipos frequentemente reproduzidos no imaginário social.

Sua presença também evidencia uma dimensão política da arte. Para Hannah, manter uma tradição viva não significa apenas preservar o passado, mas afirmar uma identidade no presente e garantir que esses conhecimentos continuem circulando entre as novas gerações.

No Rio de Janeiro, essa atuação ganha uma dimensão ainda mais significativa. Em uma metrópole marcada pela diversidade e por profundas desigualdades históricas, a presença de uma mulher indígena ocupando escolas, universidades, centros culturais e outros espaços de produção de conhecimento contribui para ampliar a percepção sobre a própria identidade brasileira.

Entre o sertão paraibano e o cotidiano carioca, Hannah Cacy Potiguar constrói uma trajetória marcada pela resistência e pela valorização da memória. Sua arte funciona como instrumento de diálogo, educação e afirmação cultural.

Sua história lembra que a ancestralidade indígena não pertence apenas aos livros de história ou aos registros arqueológicos. Ela está presente nas pessoas, nos saberes, nas danças, nas narrativas e nas práticas culturais que continuam sendo transmitidas.

Ao transformar sua própria trajetória em instrumento de afirmação, Hannah Cacy Potiguar ajuda a manter acesa uma memória que não desapareceu. Uma memória que atravessou o tempo, chegou às cidades e continua encontrando novos caminhos para ser contada, dançada e vivida.