Foi num 13 de maio que nasceu o atual e colossal Lima Barreto: literatura como mapa da República brasileira

Foi num 13 de maio que nasceu o atual e colossal Lima Barreto: literatura como mapa da República brasileira

Por Cristina Nunes de Sant’Anna

Afonso Henriques de Lima Barreto veio ao mundo em 1881, na Rua Ipiranga, no. 18, em Laranjeiras, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Era uma sexta-feira, 13, do mês de maio. Sete anos depois, no dia 13 de maio de 1888, abolia-se a escravatura. Meses depois, numa sexta-feira, que caiu em 5 de novembro de 889, Deodoro da Fonseca abolia a monarquia e proclamava a República.

Lima Barreto passou pela abolição da escravatura, a pedra de cal para o ocaso do último imperador do país. Conviveu com dois sistemas políticos: o monárquico e o republicano. Passou por 13 presidentes, alguns estados de sítio, poucas eleições (a bico de pena), pela política dos governadores, pelo poderio dos coronéis e suas oligarquias. Passou por revoltas e revoluções: Armada, Vacina, Chibata, Canudos, entre outras.

Charge de 1882 sobre a queda de D. Pedro II por Agostini. Crédito da imagem: Blog da Jack

Presenciou a fundação da Academia Brasileira de Letras, depositária da boa literatura e dos bons literatos, em acordo com o projeto literário-político-nacional brasileiro.

Sobreviveu a surtos de varíola, febre amarela, tuberculose, cólera, à gripe espanhola, que assolaram o Rio. Esta última matou o rei da Espanha e o presidente Rodrigues Alves, vitimando 13 mil pessoas só na capital republicana.

Sobreviveu, ainda, ao positivismo, um dos braços da república dos militares do sabre e da espada, e, mal, à tese cientificista em vigor de superioridade da raça branca.

A charge de Alfredo Sotorni ironiza a política do café-com-leite que marcou fortemente a República Velha. Crédito da imagem: Site Escola Educação

Viveu sob a gestão de 24 mandatários à frente do município do Rio de Janeiro, a também capital federal, entre eles interventores, interinos e perfeitos propriamente ditos, nomeados pelo Governo Federal. É testemunha da restauração urbana à francesa da capital federal pelo prefeito Pereira Passos, no projeto Belle-Èpoque à brasileira de ordem, civilização, progresso e eugenia urbana, processo retomado pouco depois pelo prefeito Carlos Sampaio

Vê o preço do café subir e o acordo de Taubaté vicejar, a borracha fazer ricos e pobres em curto espaço de tempo, a eletricidade e os bondes da Ligth chegarem à capital, o lançamento da candidatura de Rui Barbosa, para suceder ao presidente Afonso Pena, decidindo apoiá-la oficialmente.

REPRODUÇÃO ICONOGRAPHIA – INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO.
Crédito da imagem: Slide Payer

Assiste a greves no ainda jovem movimento operário brasileiro. Acompanha pelos jornal a Primeira Guerra, a Revolução Russa, a vinda do Rei Alberto I, da Bélgica ao Brasil, a exposição do Centenário da Independência. Mas não verá a posse do presidente Artur Bernardes em 5 de novembro de 1922. Lima Barreto morre 14 dias antes, em casa, no subúrbio de Todos os Santos, às cinco da tarde, de colapso cardíaco. Seu pai sai de sua demência, pergunta pelo filho, nada lhe dizem. João Henriques morrerá 48 horas depois do filho, deixando flagrante a extrema e profunda ligação que tinham, ambos vivendo histórias de vida parecidas, entre o Brasil imperial e depois republicano.

Entre seus nascimento e morte, no dia 1º. De novembro de 1922, aos 41 anos, o intelectual negro, jornalista, literato, escritor e funcionário público Afonso Henriques de Lima Barreto testemunhou, escreveu sobre, conviveu com e passou por uma enormidade (e pluralidade) de fatos e episódios que, entrelaçados, convergiram na formação do processo de construção e de consolidação da Primeira República brasileira ou República Velha a que deu origem à nossa República e aos dias tenebrosos em que estamos a viver. Lima Barreto. Hoje e sempre.

Lima Barreto foi marcado profundamente pelo cenário político e econômico instável da República brasileira e como bom repórter que foi, foi aos fatos. Foi à rua trabalhar e colher o que e dava naqueles tempos. Sempre voltando à sua redação: sua casa, à qual batizou, ironicamente, de Vila Quilombo, no atual subúrbio de Todos os Santos, para montar suas reportagens, na forma de crônicas, romances, artigos, contos, vasta correspondência, diário, ensaios, sabendo que não existia, como de fato jamais poderá existir, a tão propalada, e nem por isso verdadeira neutralidade jornalística.

Crédito da imagem: Jornal da USP

Lima Barreto irá se posicionar sobre todo o cenário político republicano em sua obra, reunida em 17 volumes publicados pela Editora Brasiliense, em 1956. Como escreve o jornalista e historiador Francisco de Assis Barbosa, seu principal biógrafo Lima Barreto, por intermédio de sua literatura-reportagem, tratará de todos os acontecimentos de sua época, dos simples aos mais complexos:

“ Não será possível proceder-se à revisão da história republicana, do Quinze de Novembro ao primeiro Cinco de Julho sem recorrer aos romances, contos, crônicas e artigos de Lima Barreto. (…)Anotou, registrou, comentou , fixou, todos os grandes acontecimentos da Primeira  República, desde seu advento até o começo de sua agoni, com a revolta do Fortede Copacabana. (…).Traçou, em suma, todo o panorama da mentalidade burguesa, predominante no Brasil.” (BARBOSA, Francisco de Assis. Lima Barreto – romance. Rj: 1972, pp 8-9 ).

Qualquer semelhança com os dias de hoje não terá sido mera coincidência.

Conheça  ou revisite a obra de Lima Barreto durante este período de isolamento social.

Baixe o pdf de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, disponibilizado pelo site Domínio Público do governo federal ( dominiopublico.gov.br ):

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000159.pdf

#FICA EM CASA….LENDO

Cristina Nunes
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Cristina Nunes

Cristina Nunes de Sant' Anna é jornalista doutora em Ciências Sociais e pesquisadora associada do Laboratório de Comunicação e Consumo, Lacon Uerj e criadora do blog fanpage Literatura é bom pra vista.