“Sou leve, estou viva “, diz a Secretária de Cultura Regina Duarte

“Sou leve, estou viva “, diz a Secretária de Cultura Regina Duarte

Por Cristina Nunes de Sant’Anna

Nesta primeira quinzena de maio, a gripezinha Covid-19 contaminou 145.328 pessoas no país e enterrou 9.897.

Nesta semana, entre os que foram vencidos pela doença está Aldir Blanc, compositor do naipe de Noel Rosa. Pois não se ouviu qualquer menção da Secretaria de Cultura do Governo Federal a respeito desses artistas. A titular da pasta, a ex-atriz Regina Duarte, se manteve em silêncio.

Aldir Blanc – perda inestimável para a cultura brasileira

Em entrevista concedida à Rede CNN de TV por assinatura, no dia 7 de maio secretária disse que não queria arrastar um cemitério de mortes nas costas porque estava viva e leve, quando respondeu aos entrevistadores sobre seu silêncio. Durante a entrevista, Regina Duarte também cantou, ensaiou uma dança com os braços e sugeriu aos telespectadores que ficassem leves porque a humanidade não para de morrer.

A atriz e atual Secretária da Cultura do governo federal espera leveza dos brasileiros apesar da pandemia

“Precisamos andar para frente”, disse engatando a canção fúnebre da ditadura brasileira “Pra frente, Brasil” . Imaginemos, agora, como deve estar  sendo “andar pra frente” para cada um dos familiares das pessoas ceifadas pela covidezinha.

Imaginemos, também, como as pessoas contaminadas por esta mesma gripezinha, empilhadas em corredores de hospitais lotados, sem vagas, conseguem “andar pra frente”? Será que conseguem andar? Será que você, eu, nós, conseguiríamos cantar, dançar,” andar para frente” e ficarmos leves, diante de uma pandemia? Sim. Todos morreremos um dia. Ninguém sai vivo da vida. Mas convenhamos que são muitos de uma só vez e com imensas rapidez e sofrimento que se vão por causa desta simples covidezinha. E cada uma destas pessoas que se foi, bem como os parentes e amigos delas passaram e passam por momentos de dor. Dor implacável. Há pouco menos de uma semana nosso Aldir Blanc se foi. Seus familiares não puderam se despedir porque há risco de contaminação. E assim também foi com cada um dos 9.897 mortos pela covidezinha. Nenhum deles pôde ser pranteado.

Chama-se empatia ver que o outro existe e se pôr no lugar dele. É respeitar a limitação, a dor, a fragilidade deste outro. Empatia, do grego empatheia, paixão. No fundo é isto mesmo: olhar o outro com empatheia porque , caso existíssemos para viver sozinhos, o mundo redondo não teria mais de 7 bilhões de pessoas, compartilhando o mesmo ar e a mesma água, que roda o mundo há bilhões de anos.

Não poderia, também, deixar de registrar minha profunda tristeza com a morte de Jesus Chediak, levado pela covidezinha em 8 de maio. Produtor de cinema, diretor teatral e jornalista, era curador da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro.

Entrevistei Chediak uma vez, para o blog/fanpage Literatura é bom pra vista. Durante a entrevista, ele e disse que, ao se sentir triste ou deprimido, relia A Montanha Mágica de Thommas Mann. ”Passa tudo na hora. Ali encontro respostas”, disse, na ocasião.

Jornalista, diretor teatral entre outras atividades da cena cultural, o multitarefas Chediak deixa o Brasil mais pobre de cultura, inteligência e afeto

Chediak era diretor de Cultura da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e um apaixonado pela cultura. Era detentor de uma cultura imensa, gigantesca, colossal, praticamente infinita. Homem inteligente, brilhante, sagaz e generosos. Vai fazer muita falta nestes tempos em que a cultura tem sido tão machucada e massacrada.

Créditos das imagens –

Regina Duarte – reprodução Globo News

Aldir Blanc – reprodução Folha-Uol

Jesis Chediak – Eu, Rio

Cristina Nunes
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Cristina Nunes

Cristina Nunes de Sant' Anna é jornalista doutora em Ciências Sociais e pesquisadora associada do Laboratório de Comunicação e Consumo, Lacon Uerj e criadora do blog fanpage Literatura é bom pra vista.